Histórico

A CAPELA DE SÃO MIGUEL

Foto da Capela anterior ao Restauro de 1938


Dra. Roseli Santaella Stella*
Associação Cultural Beato José de Anchieta

Em 1560, com a transferência da vila de Santo André da Borda do Campo para São Paulo de Piratininga, o índio Piquerobi, irmão de Tibiriçá, e seus seguidores deixaram  as imediações do Pátio do Colégio para se instalarem nas proximidades do rio Ururaí, região que lhes era familiar. No mesmo ano, o Pe. José de Anchieta chega à aldeia atendendo a orientação do Pe. Manoel da Nóbrega para que os antigos discípulos fossem visitados.

            Sabendo-se que o nomadismo constitui uma característica dos nativos, as origens dos atuais bairros e cidades são marcadas pela presença do elemento conquistador, fosse ele movido pelo desejo de riqueza, agindo por interesses particulares ou em nome do rei, ou movido pela fé e em nome de Cristo para a conquista do homem ao Reino de Deus. São Miguel enquadra-se neste último caso e a carta do Pe. José de Anchieta dirigida ao padre geral Diogo Lainez, a 12 de junho de 1561, traz os elementos reveladores que cercam a fundação de São Miguel.

A opção deste Arcanjo para orago da aldeia pode ser atribuída ao fato de os nativos chefiados por Piquerobi se identificarem com a figura de São Miguel por seu espírito guerreiro. O Arcanjo também representa a vitória do bem sobre o mal, e este era o caso da missão dos jesuítas com respeito aos indígenas dissidentes do Pátio do Colégio e encontrados em Ururaí. O padre Hélio Abranches Viotti, acredita que a opção por São Miguel deveu-se ao gosto pessoal de Anchieta, porque na infância conviveu com a ermida do mesmo nome situada em frente da sua casa na cidade de La Laguna onde nasceu, na Ilha de Tenerife. E se a questão está relacionada com a influência recebida por Anchieta para designar um padroeiro à aldeia, ainda cabe lembrar que São Miguel igualmente é o padroeiro da sua cidade natal .

Em 1584, quando escreve Informações do Brasil e suas Capitanias, Anchieta é preciso. Referindo-se a São Paulo, comenta que ao redor da vila havia doze aldeias não muito grandes, distantes de uma a três léguas, as quais eram atingidas continuamente por caminhos terrestres e fluviais. Além do batismo recebiam outros sacramentos, e com o passar do tempo essas aldeias praticamente se juntaram em duas. Uma delas ficava a uma légua da vila e a outra distante duas léguas, sendo que ambas possuíam igreja. Anchieta ainda esclarece que tais aldeias eram São Miguel e Nossa Senhora da Conceição dos Pinheiros, com um total de mil pessoas. Ainda comentou haver não muito longe, grande número de índios a serem convertidos. Nota-se, portanto, que São Miguel e Pinheiros são os bairros mais antigos da cidade de São Paulo e, indiscutivelmente, desempenharam relevante papel para a formação e desenvolvimento da vila de São Paulo, fundada apenas seis anos antes.

Em 1586, ao escrever o Catálogo dos padres e irmãos da província do Brasil, documento que encontramos no Arquivo Romano da Companhia de Jesus, no Vaticano, com a referência bras 51 28, ao citar os padres que atuavam na Capitania de São Vicente, quando se refere ao Planalto apenas menciona os que atuavam no Colégio ou Casa de Piratininga e na “Residencia de S. Miguel annexa a la casa”. Em São Miguel, o padre Diogo Nunez era o confessor e professor da língua. Isso significa que se os jesuítas fundaram outras aldeias no planalto de Piratininga, apenas no atual Pátio do Colégio e em São Miguel fixaram residência. Nesses locais houve um intenso trabalho com a presença em tempo integral de jesuítas, sendo que as demais aldeias eram apenas visitadas.
No Catálogo dos padres e irmãos da Província do Brasil escrito pelo Pe. José de Anchieta em 1586, lê-se: 
Residência de São Miguel anexa à casa
Pe. Diogo Nunez, confessor e língua
Custódio Perez...

            Os trabalhos apostólicos em São Miguel e a existência da igreja anteriormente referida por Anchieta, são confirmados por Jerônimo Leitão, capitão de São Vicente, na Carta de Doação de Terras, de 12 de outubro de 1580, conferida aos índios de Ururaí por serem cristãos e pelo apoio em defesa da vila. Chefiados por esse capitão, em 1565, os índios de São Miguel participaram da luta contra os Tamoios em Cabo Frio, e ainda apoiaram a expedição de Estácio de Sá que Anchieta ajudou a organizar, resultando na expulsão dos franceses da Guanabara e na fundação do Rio de Janeiro.

            O caráter guerreiro dos índios chefiados por Piquerobi e a posição estratégica da aldeia foram suficientes para que São Miguel ganhasse importância no sistema defensivo da vila de São Paulo, contra as investidas dos Tamoios. Por outro lado, a mesma posição geográfica propiciava reunir em um grande núcleo vários índios espalhados pela região, facilitando o trabalho dos poucos missionários em tão estendidas paragens.

            Inimigos naturais dos Guaianazes, os Tamoios encontravam-se ao longo do litoral do Rio de Janeiro. O caminho rumo ao sul através da costa marítima para depois subir a serra do Mar, passando pelas imediações dos fortes de Bertioga e da Barra Grande de Santos, não convinha a qualquer inimigo com intenções de chegar ao planalto de Piratininga sem ser notado. Não obstante, a Vila ainda poderia ser atingida pelo litoral norte paulista e pelo rio Paraíba. Ambos os trajetos encontram no Tietê o meio fluvial que conduz a São Paulo.
            Da primitiva e rudimentar igreja mencionada por Anchieta não restaram vestígios, apenas informações documentadas, enquanto a segunda levantada para substituí-la, e ainda existente, é fruto da obra anchietana em terras de Ururaí. Suas grandes proporções para a época, se comparada ao templo que havia no Colégio de São Paulo, denota a relevância adquirida por São Miguel pouco tempo após sua fundação.
No Catálogo dos padres e irmãos do Colégio do Rio de Janeiro e suas residências em 1621, lê-se:
 Capitania de São Vicente
Casa de São Miguel
Pe. Antônio Lobo Superior, pregador, confessor
Pe. Antônio da Cruz, pregador, confessor, língua
Ir. Domingos Alvarez...
Ir. João Sanches...

            Basta posicionar-se diante da capela de São Miguel, situada em um ponto alto com relação ao leito do rio, que se tem visualmente o domínio completo daquela região banhada pelo Tietê rumo a São Paulo. Vê-se, pois, que a obra jesuíta em São Miguel obedeceu a um plano aglutinador e defensivo, tanto que em 1623 os índios aldeados em Itaquaquecetuba foram transferidos para São Miguel. Nossa Senhora da Conceição de Guarulhos, situada na outra margem do Tietê, passou a receber as mesmas atenções da Companhia de Jesus em terras paulistas, indicando o papel desempenhado pela região no contexto da vila de São Paulo.

            A construção da nova igreja de São Miguel foi encarregada ao padre João Álvares, pelo sertanista Fernão Munhoz, natural da Espanha, ao que parece, para valorizar as terras indígenas de que havia se apossado e, talvez, para redimir-se de suas ações enquanto bandeirante. As obras foram concluídas a 18 de julho de 1622, segundo consta da inscrição na verga da porta principal.

            Um dado relevante que reforça a importância de São Miguel, é o fato de a aldeia ter ostentado a condição de Padroado Real. Isso significa que os índios estavam sob plena jurisdição do Rei, através dos organismos locais, e a serviço de Sua Magestade. Tal condição fez com que os jesuítas tivessem seus poderes limitados em São Miguel, principalmente, com o fim do domínio espanhol no Brasil, em 1640, e indica um dos fatores responsáveis pelo retrocesso ocorrido na aldeia.

            Enquanto ocorria o desenvolvimento cristão de São Miguel, eram incrementadas as atividades sertanistas na vila de São Paulo com as várias notícias de riquezas minerais e as bem sucedidas incursões direcionadas às colônias da América espanhola.

            Com maior número de nativos já doutrinados, São Miguel tornou-se alvo de interesses imediatos, próprio dos bandeirantes, sendo que os jesuítas não tinham plena autoridade sobre os destinos dos índios pertencentes aos Padroados Reais. Em 1663, índios de São Miguel foram levados para integrar a expedição de Matias de Albuquerque que procurava as disputadas esmeraldas.

            A antiga aldeia então fornecia os elementos indispensáveis para o desenvolvimento das atividades sertanistas na fase escravista e mineralógica, desenvolvidas pelos habitantes de São Paulo, muitos dos quais perseguidos pela Inquisição tanto na Espanha como em Portugal. Note-se que o domínio espanhol sobre Portugal e, conseqüentemente, sobre suas colônias, aumentou as atenções desse Tribunal ao mesmo tempo em que facilitou a vinda de espanhóis para o Brasil.
Mapa da Capitania de São Paulo, elaborado em 1765 por Luiz Antônio de Souza, que foi Capitão General de São Paulo em 1773. Localização da Capela de São Miguel. (Fonte: AESP-Mapa 08.02.13)

            O choque de interesses entre os jesuítas, a oficialidade local e colonos provocou, em 1640, o afastamento dos sacerdotes de São Paulo. Treze anos depois retornaram, até que em 1759 foram expulsos do Brasil. Efetiva-se assim, a apropriação do serviço dos índios, mas, antes disso, os velhos, mulheres e crianças sem a ajuda dos guerreiros empregados no sertão ou já desaparecidos, foram insuficientes para defender suas terras contra a ocupação indevida.


Em 1691, a igreja de São Miguel sofreu reparos e no século XVIII, passou por reformas promovidas pelo franciscano frei Mariano da Conceição Veloso, nascido entre igrejas barrocas, em Mariana, Minas Gerais. Sua obra respeitou a construção original, apenas acrescentou elementos que pouco modificaram suas formas e grandiosidade originais. A construção das paredes é de taipa, mas, a parte superior de algumas delas é de adobe, tijolo manual que já se utilizava em Minas, indicando o acréscimo realizado pelo frei Mariano. A altura da parede (pé direito) da nave central foi elevado de quatro para seis metros, e duas janelas foram abertas acima do telhado fronteiro. Ainda ganhou altares laterais e escoramento interno de madeira, além de certos elementos decorativos em dourado no altar principal, na sacristia e na capela lateral que também lhe foi acrescida.

A pia batismal e a bancada de comunhão originais são em jacarandá. Esta última ornamentada por querubins em duas extremidades expressa a singeleza das mãos que os entalhou, apresentando rostos de traços finos e alongados, a exemplo das feições européias. Ainda são encontradas carrancas entalhadas na janela externa e na porta que lembram traçados de povos andinos ou mesmo incas. Chamam a atenção pelo fato de terem sido feitas em uma parte da capela onde não se realizavam as cerimônias religiosas e, como é sabido, estes povos costumavam ornar com carrancas a entrada de suas moradias para espantarem os maus espíritos. Um fato é certo, estas existentes em São Miguel não apresentam qualquer semelhança com os entalhes e figuras do gênero produzidas pelos nativos brasileiros, o que nos assegura afirmar tratar-se de testemunho da presença em São Miguel de índios capturados por sertanistas na América espanhola. E talvez seja este o único vestígio da presença destes índios no Brasil.

As portas variadas com o seu sistema de abertura constituem interessante acervo desta Igreja, seja por suas formas decorativas, também encontradas em Canárias e nas Ilhas portuguesas, seja por sua dupla função no caso de uma delas: a de separar o altar da sacristia ao mesmo tempo em que os elementos vazados transformavam o espaço em uma espécie de confessionário.

A Igreja ainda possuiu um elemento arquitetônico que a torna inconfundível: a varanda ou balcão fronteiro e lateral que a cerca em forma de um grande L. O primeiro é aberto na parte superior e sustentado por seis pilares, também de taipa. O segundo é fechado com pilastras em toda a extensão.

Quanto ao emprego, estas varandas dividem a opinião de especialistas. Segundo alguns, a utilização de alpendres garantia o frescor das construções, além de constituir abrigo para forasteiros durante as caminhadas. Segundo outros, os alpendres eram a extensão do próprio templo, servindo para separar as classes inferiores, mestiços, negros e índios, dos mais privilegiados ou índios convertidos ao catolicismo. Sobre a questão cabe refletir sobre os fundamentos missionários que marcaram a obra jesuíta no Brasil e que a exclusão contrariava a catequese. Por outro lado, na época da construção, São Miguel não registrou a necessidade de utilização de mão-de-obra escrava africana, posto que a região não figurou como centro produtivo agrícola ou mineralógico, de maneira que, no início do século XVII, a antiga aldeia de Ururaí era apenas um ponto importante para a propagação da fé e defesa da Vila de São Paulo de Piratininga pelos próprios índios.

Unânime, no entanto, é a opinião de que os alpendres eram um recurso utilizado nas construções domésticas e também empregado na arquitetura religiosa e, segundo Aracy Amaral, de influência espanhola, vinda ao Brasil diretamente ou através da hispano-américa. As mesmas pilastras dos alpendres são encontradas em residências da Colômbia, Venezuela, Equador e na Espanha, neste último, ao contrário de Portugal, amplamente utilizadas no século XVI, obedecendo a princípios palacianos. Pode-se afirmar que a capela de São Miguel é um dos poucos, e talvez o único exemplar existente no Brasil que conserva integralmente as suas originais varandas.

Já o púlpito, no alto da parede lateral esquerda, pode ser encontrado em outras construções religiosas, no entanto, são poucos os que apresentam igual datação. O mesmo modelo ainda foi empregado em uma espécie de sacada, existente na parte externa da capela, sob o amplo beiral que, na falta de calha, evitava que o barro das paredes de taipa fosse levado pelas chuvas.

A capela de São Miguel foi o primeiro bem tombado pelo Instituto Histórico e Artístico Nacional, pessoalmente indicado pelo diretor que o fundou, o arquiteto Luis Saia, que ainda dirigiu as obras de restauração promovidas entre 1939 e 1940.

Considerações baseadas em:

Amaral, Aracy A. A Hispanidade em São Paulo. Edusp/Nobel, São Paulo, 1981.
Patrimônio Cultural Paulista- Condephaat Bens Tombados: 1968-1998. (Coord. Kamide, Hiroe Miguita Kamide et alii). São Paulo, Imprensa Oficial do Estado, 1998.
Stella, Roseli Santaella. “Anchieta e a Fundação de São Miguel de Ururaí”. Anais do Congresso Internacional Anchieta 400 Anos. São Paulo, Comissão do IV Centenário de Anchieta, 1997, p.329-336.
_______. O Domínio Espanhol no Brasil Durante a Monarquia dos Felipes. São Paulo, Unibero/Cenaun, 2000.
Viotti, Hélio Abranches, SJ. “Origens de São Miguel”. In: Antonio, Geraldo. Catálogo Comemorativo do 359º Aniversário de São Miguel Paulista.São Paulo, s/ed. 1981, p.2-3.
“Catalogo de los Padres y hermanos de la provincia del Brasil. Año de 1586.” Joseph de Anchieta, ARCHIVUM ROMANUM S.I., bras 51 28, Roma, Itália.
*Roseli Santaella Stella é doutora em História pela Universidade de São Paulo, integra a Comissão do Patrimônio da Diocese de São Miguel e da Restauração da Capela de São Miguel.